PORTO: Café Brasileira reabre como hotel de cinco estrelas

O edifício do centenário café A Brasileira, no Porto, vai reabrir, finalmente. Além da cafetaria, terá um restaurante de autor e um hotel de cinco estrelas com 90 quartos e seis pisos a cheirar a canela, café ou anis. Só no dia 23 deste mês deve abrir ao público, mas a Visão Se7e já o foi espreitar

 

Já não encontrará por ali senhores vestidos de smoking ou senhoras de vestido comprido e chapéu de abas largas. Nem será preciso sentar-se do lado esquerdo (na linguagem política, se for de direita) ou à direita (se for de esquerda). Os tempos serão outros, obviamente, quando o antigo café A Brasileira (1903) reabrir dentro de dias – a data apontada é 23 de março – embora os tetos, paredes, mármores, colunas e chão sejam os mesmos de há um século. “A ideia foi reabilitar uma cafetaria emblemática da cidade e acrescentar-lhe um hotel”, frisa Pedro Oliveira, filho do empresário e ex-selecionador nacional de futebol António Oliveira que adquiriu o edifício em 2013. Entre a aquisição do imóvel, o restauro e a construção do hotel, a obra terá custado 12 milhões de euros ao Grupo OPPA (do qual António Oliveira é proprietário). O negócio cumpre um sonho antigo do empresário que se recorda de frequentar o café “desde os 15 anos, quando ia para a Baixa passear os livros”, ironiza. Devolver A Brasileira à cidade terá sido o seu objetivo inicial quando adquiriu o edifício do século XIX, situado na rua Sá da Bandeira, próximo do Teatro Sá da Bandeira e da Estação de São Bento. Para a nova vida d’ A Brasileira, o empresário firmou um contrato de apoio à gestão com o grupo Pestana, que posicionará a unidade entre os Collections Hotels da cadeia hoteleira.



Cheiro a especiarias

A reabilitação do edifício esteve a cargo do gabinete dos arquitetos Ginestal Machado e Maria Ginestal, que procurou respeitar a traça original e grande parte do que foi deixado pelo arquiteto Januário Godinho. Ou o que foi possível aproveitar, depois de algumas decorações e motivos de época originais (puxadores, frisos em cobre e até o corrimão da escadaria) terem sido roubados em dois assaltos ao edifício durante o tempo em que esteve fechado. À semelhança de outras unidades do grupo Pestana, o arquiteto brasileiro Jaime Morais foi também o responsável pela decoração de interiores dos 90 quartos (entre duplos e suítes) divididos por seis pisos temáticos a fazerem lembrar as especiarias trazidas pelos Descobrimentos portugueses – café, chá, cacau, pimenta-rosa, canela e anis – e cujo aroma se deverá sentir nos corredores. O hotel tem ainda um pátio francês exterior com um jardim vertical (piso 1), um ginásio, salas de estar e de reuniões (piso -1).

Um café, muitas memórias

Mas os olhos deste novo hotel de cinco estrelas estarão postos, certamente, no antigo café e restaurante, liderado por Rui Martins (chefe do Rib Beef & Wine), onde se chega pela mítica entrada com o para-sol de vidro. O café virá de uma fazenda do Brasil, a 150 km das plantações onde, no início do século XX, o farmacêutico Adriano Telles trouxe o primeiro café servido em chávena. Este regresso trará, certamente, recordações a muitas gerações que ali iam com os pais comprar sacos de café em grão ou moído. Mas haverá outros revivalismos, como um bolo de frutos secos, servido à fatia, a recordar o mítico “bolo 4 de maio”. Estes e outros mimos – como o rançoso, o toucinho-do-céu ou as clarinhas – serão recuperados pela equipa de Rui Martins (chefe cozinheiro do ano 2016) que se inspirou no receituário português e em toda a história de quase um século do antigo café. No restaurante, a cozinha portuguesa de autor prestará tributo às tripas à moda do Porto, ao bacalhau à Brás, ao caldo verde, às lulas estufadas ou à sopa seca (sobremesa típica de Penafiel) que será recriada num gelado. Fazer de A Brasileira, um “espaço de memória para homenagear artistas do Porto, como Júlio Resende, José Rodrigues ou Ângelo de Sousa”, assim como recuperar as antigas tertúlias, são outras intenções de António Oliveira, o proprietário.

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