A entrada no Porto do exército libertador

Completa-se hoje, dia 9 de Julho, 187 anos da entrada no Porto do exército constitucional de D. Pedro, um dia após ter desembarcado na praia de Arnosa de Pampelido, próximo do Mindelo, um acontecimento que marcou o início da guerra civil entre liberais e absolutistas.

Logo após o desembarque, que ocorreu pelas 18h00 do dia 8 de Julho, D. Pedro dirigiu-se para Perafita, e daí para Pedras Ruivas, ameaçando nesse movimento as exíguas tropas do general miguelista Santa Marta, estacionadas nas proximidades, as quais, quase de seguida, regressavam ao Porto, incorporando, de caminho, as guarnições dos castelos do Queijo e da Foz, que assim ficaram à mercê do exército liberal.

Uma vez no Porto, onde chegaram já de noite, as tropas absolutistas não se detiveram na cidade, atravessando de imediato a ponte de barcas para Vila Nova de Gaia – que logo de seguida cortaram -, uma vez mais sem deixarem na retaguarda um só homem, pelo que todas as defesas e postos de guarda da cidade ficaram abandonados, incluindo a cadeia, então bem recheada de presos políticos.

Tudo isto se passou das 2h00 para as 3h00 do dia 9 de Julho, mas de um modo tão silencioso e discreto que, na manhã desse dia, uma boa parte dos portuenses ainda ignorava que as tropas miguelistas tinham abandonado a cidade.Informado nessa mesma manhã da retirada dos absolutistas, D. Pedro mandou de imediato ocupar a cidade e, após a entrada de vários batalhões e outros corpos do exército constitucional, pelo meio-dia, era o próprio D. Pedro que anunciava a sua entrada.

Contrariamente ao que, por vezes, é apresentado, ao referir-se que os portuenses manifestaram uma total indiferença pela chegada do exército constitucional, na realidade, a população do Porto, não obstante ter manifestado alguma apreensão pelo diminuto número dos efectivos das tropas constitucionais e pela difícil situação que previsivelmente os esperava, não deixou de aclamar condignamente a entrada do exército libertador na cidade.

Segundo Luz Soriano, “o baixo povo apressou-se em sair ao encontro dos recém-chegados, e em lhes apresentar todas as provas da sua mais viva alegria e regozijo”. Libertos da pressão repressiva que os seguidores de D. Miguel tinham instalado na cidade, de imediato os portuenses decidiram eliminar os instrumentos mais aviltantes da actuação das autoridades absolutistas, como as três forcas que desde 1828 tinham sido instaladas na cidade – uma no Largo da Cordoaria, e duas na Praça Nova (actual Praça da Liberdade) -, as quais foram derrubadas e queimadas pela população.

Também os dois carrascos da alçada foram mortos pela população em fúria, ainda segundo Luz Soriano, “um deles com mais barbaridade do que o outro, pelas atrocidades que se lhe atribuíam nas execuções por ele praticadas nos desgraçados constitucionais, que lhe caíam nas mãos, sentenciados pela alçada de execranda memória”.

Quando o exército constitucional entrou na cidade, pela “estrada velha” (a denominada “Via Veteris” na documentação medieval, e que em 1835 foi crismada Rua de Nove de Julho), Ramada Alta e Rua de Cedofeita (que, naquela época, englobava a actual Rua do Barão de Forrester), os portuenses deram, então, largas a autênticas manifestações de júbilo.

Ainda segundo Luz Soriano, “as janelas achavam-se apinhadas de senhoras, trajadas com deslumbrantes galas azuis e brancas – testemunhando a sua adesão às cores da bandeira constitucional, dado que as forças miguelistas utilizavam a bandeira branca com a esfera armilar, introduzida por D. João VI – cores que também brilhavam nos fatos dos transeuntes, e nas fitas e laços e que se ataviavam.

Os hinos e os vivas a D. Pedro, a sua augusta filha, e à carta constitucional, ressoavam por toda a parte, atroando os ares, querendo assim mostrar os portuenses, por este primeiro impulso, que o seu espírito liberal era ainda tão vivo e fervoroso como nos tempos anteriores o fora”.Após ter percorrido toda a Rua de Cedofeita, D. Pedro e os seus acompanhantes – entre os quais se contavam os marqueses de Palmela, de Loulé, de Fronteira e de Ponte de Lima – dirigiram-se para os paços do concelho, na Praça Nova, e já no seu interior ele mandou ler uma proclamação dirigida aos portugueses e uma outra, consagrada especialmente aos portuenses: “Leais habitantes da cidade do Porto! A impressão agradável, que em mim tem feito o interesse verdadeiro que tendes tomado pela justa causa da minha augusta filha, e pelo triunfo da carta constitucional, corresponde à ideia que eu havia formado da vossa lealdade, e do vosso patriotismo, e a adesão que manifestais hoje àqueles dois sagrados princípios, e à minha imperial pessoa, penhoram por extremo o meu coração. Ilustres portuenses, pela vossa conduta pacífica em tão extraordinárias circunstâncias, e no calor do vosso entusiasmo, provastes mais uma vez que sois dignos de gozar dos benefícios de um governo livre e justo; as vossas esperanças não serão iludidas. Recebei, pois, fiéis portuenses, em nome da senhora D. Maria II, minha augusta filha, e vossa rainha, e em meu nome, a expressão do mais vivo agradecimento, e tende por certo que se os vossos sacrifícios têm sido grandes, grande há-de ser a recompensa que a História vos prepara; e que, se tendes sido vítimas de um despotismo feroz e sanguinário, um governo de mansidão e de justiça vem comigo cerrar as feridas rasgadas pela opressão e pela tirania”.

Instalado no Palácio dos Carrancas, que já se encontrava preparado para o receber, e que durante algum tempo lhe serviu de residência e quartel-general – embora, mais tarde, tivesse sido obrigado a mudar-se para uma casa na rua de Cedofeita, situada num local mais seguro, a fim de se refugiar da metralha com que, a partir de Vila Nova de Gaia, os miguelistas flagelavam a cidade -, o duque de Bragança deparou, contudo, com algumas dificuldades para albergar o seu exército, ainda que o mesmo não fosse muito numeroso, rondando os oito mil homens.

Deste modo, uma parte dos soldados ficou alojada em diversos quartéis e conventos, enquanto os oficiais foram aboletados por residências de particulares. Segundo Luz Soriano, “todos se esmeravam em os receber com particular distinção e benevolência”.Não obstante a boa recepção com que a população da cidade brindou o exército constitucional, no final da tarde do próprio dia 9 de Julho começaram a surgir algumas dúvidas sobre o êxito da operação desencadeada pelo duque de Bragança. Ainda de acordo com Luz Soriano, “todos os espíritos reflectidos, e menos abrasados em quimeras, começaram mais claramente a conhecer todo o precário da sua melindrosa situação.

Os indivíduos que por imperiosos motivos não puderam retirar-se da cidade clamavam contra os que concorreram para que o imperador empreendesse com tão insignificante exército a restauração do trono de sua filha, ocupado por um príncipe idolatrado pela populaça, fanatizado pelo clero, apoiado pela nobreza cortesã e provinciana, e finalmente defendido por um exército numerosíssimo, e que tinha à sua disposição todos os recursos nacionais, e todas as forças de terra e mar, sem falar do grande apoio que também tinha na vizinha Espanha.

A situação depressa se afigurou preocupante, pois, apesar do entusiástico apoio do “baixo povo”, parecia não ter existido “pessoa de vulto” que tivesse participado activamente nas festas de recepção de D. Pedro, estivesse na disposição de partilhar com ele a sua sorte, e identificar-se abertamente com a sua causa.Tanto o duque de Bragança como os seus conselheiros estavam igualmente conscientes da precariedade da sua situação.

Deste modo, não é de estranhar que tivessem deitado mão a todos os estratagemas que contribuíssem para uma melhoria do ânimo das suas tropas e, ao mesmo tempo, causassem efeito inverso no exército miguelista. É disso exemplo o facto de, logo após a chegada, os constitucionais terem difundido uma série de notícias falsas, destinadas a minar a confiança do adversário, as quais apontavam a existência de contactos secretos entre D. Pedro e alguns dos chefes das tropas miguelistas.

Embora tivessem retirado da cidade, as tropas miguelistas, talvez por se sentirem seguras pelo facto de terem cortado a ponte de barcas e, consequentemente, a ligação com o Porto, tinham estacionado em Gaia. Daí, mais propriamente da praia de Vila Nova, flagelaram durante todo o dia 9 de Julho várias zonas do Porto, do Ouro até à Praça da Ribeira.

A chegada, no dia 10, da esquadra do almirante Sartorius veio pôr cobro a esta situação, que cada vez mais incomodava e punha em risco as vidas dos portuenses que viviam na parte baixa da cidade. Estacionado em frente a S. João da Foz, de fora da barra, Sartorius enviou, no entanto, uma corveta e algumas embarcações que, ao fazerem fogo sobre a margem esquerda, provocaram a diminuição da intensidade do fogo miguelista e permitiram que uma divisão liberal atravessasse o rio e atacasse vigorosamente as posições absolutistas, que logo de imediato se puseram na mais completa debandada, só se detendo em Oliveira de Azeméis, onde se concentrava o grosso do seu exército.

Após esta primeira vitória, foi restabelecida a ponte de barcas e a comunicação regular com Vila Nova de Gaia, o que melhorou consideravelmente o acabrunhado ânimo dos portuenses. Mas o que se veio a revelar decisivo no desenrolar da guerra civil foi a ocupação pelo exército liberal do convento da Serra do Pilar, uma posição estratégica que garantia uma sólida defesa da própria cidade do Porto, e que, segundo Luz Soriano, “fez com que os seus habitantes começassem também a sair do seu estado de apatia e indiferença em que até então ali tinham vivido, influindo igualmente os juízos que formavam sobre o seu comprometimento para com os realistas, só pelo facto único de ficarem na cidade, depois de ter sido por eles abandonada”.

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